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Como conversar sobre desejos e fantasias no relacionamento

Como conversar sobre desejos e fantasias no relacionamento

Falar sobre desejos parece simples até o momento em que precisamos falar sobre os nossos.

Podemos conversar sobre trabalho, dinheiro, planos para o futuro, problemas familiares e inúmeras questões íntimas com quem amamos. Mas, quando o assunto é desejo, uma pergunta aparentemente simples como “tem alguma coisa que você gostaria de experimentar?” pode provocar silêncio, vergonha ou insegurança.

E isso não acontece necessariamente porque falta intimidade.

Falar sobre fantasias nos deixa vulneráveis. Existe o medo de ser julgada, de surpreender o outro, de provocar ciúmes ou até de ouvir algo que não sabemos muito bem como receber.

Por isso, aprender a conversar sobre desejo também é uma forma de aprender sobre intimidade.

Não porque casais precisam realizar fantasias para terem uma relação interessante, mas porque poder falar sobre aquilo que sentimos, pensamos e imaginamos ajuda a criar relações em que existe espaço para sermos conhecidos de verdade.

Por que é tão difícil falar sobre o que desejamos?

Grande parte de nós cresceu aprendendo muito pouco sobre sexualidade.

E, quando recebemos alguma orientação, normalmente ela estava relacionada à prevenção: evitar uma gravidez, prevenir infecções sexualmente transmissíveis, compreender o funcionamento do corpo.

Quase nunca aprendemos a falar sobre prazer.

Muito menos sobre desejo.

Para muitas mulheres, existe ainda outra camada nessa história. Durante muito tempo, fomos ensinadas a pensar na sexualidade muito mais a partir da expectativa do outro do que da nossa própria experiência.

O resultado é curioso: podemos chegar à vida adulta sem nunca termos nos perguntado com tranquilidade:

Do que eu gosto?

O que desperta minha curiosidade?

O que eu não gostaria de experimentar?

O que me faz sentir confortável?

Quais são os meus limites?

Talvez, antes de aprender a conversar sobre desejos com alguém, seja necessário aprender a fazer essas perguntas para nós mesmas.

Fantasia não é a mesma coisa que vontade

Esse é um ponto fundamental.

Ter uma fantasia não significa necessariamente desejar realizá-la.

A imaginação humana é livre. Podemos imaginar situações que despertam curiosidade e, ainda assim, não querer vivê-las na realidade.

Uma pessoa pode gostar de determinada ideia justamente porque ela existe apenas na imaginação.

Por isso, quando alguém compartilha uma fantasia, não devemos interpretar automaticamente aquilo como um pedido.

Às vezes, compartilhar uma fantasia significa apenas:

“Existe essa parte da minha imaginação e eu me sinto segura o suficiente para contar a você.”

Essa diferença muda completamente a conversa.

Antes de conversar com o outro, converse consigo mesma

Talvez você saiba exatamente aquilo que deseja.

Mas talvez não saiba.

E não existe nenhum problema nisso.

Autoconhecimento não significa possuir uma lista perfeitamente organizada de preferências. Significa permitir-se observar aquilo que desperta curiosidade, conforto, interesse ou até dúvida.

Você pode começar pensando:

O que eu gostaria de conhecer melhor?

Existe alguma experiência sobre a qual tenho curiosidade?

Existe alguma coisa que definitivamente não gostaria de experimentar?

Tenho alguma fantasia que prefiro manter apenas na imaginação?

O que me faz sentir segura em uma relação?

Essas perguntas ajudam a separar desejo, curiosidade, fantasia e limite.

E todas essas coisas são importantes.

Como começar essa conversa?

Não existe uma frase perfeita.

Mas existe um contexto melhor.

Conversas sobre intimidade costumam funcionar melhor quando acontecem em momentos tranquilos, sem pressão e sem a expectativa de que alguma coisa precise acontecer imediatamente depois.

Em vez de começar com uma proposta, podemos começar com curiosidade.

Por exemplo:

“Tem alguma coisa sobre a qual você sempre teve curiosidade?”

Ou:

“Existe alguma fantasia que você ache interessante, mesmo que nunca queira realizar?”

Outra possibilidade é usar algo externo como ponto de partida: uma cena de filme, um livro, uma reportagem ou até um conteúdo que vocês viram juntos.

Isso pode tornar a conversa mais natural porque o assunto começa fora da relação antes de chegar às preferências pessoais.

O objetivo não é fazer um interrogatório.

É abrir uma porta.

Escutar é tão importante quanto falar

Existe algo que frequentemente esquecemos quando incentivamos casais a conversarem sobre fantasias:

podemos ouvir uma resposta inesperada.

E isso faz parte.

Quando alguém compartilha um desejo íntimo, está mostrando uma parte vulnerável de si.

Nossa primeira reação pode determinar se aquela pessoa continuará se sentindo segura para conversar conosco.

Isso não significa concordar.

Muito menos aceitar participar.

Significa apenas ouvir antes de julgar.

Existe uma diferença enorme entre dizer:

“Isso é estranho.”

e dizer:

“Não sei se isso faria sentido para mim, mas quero entender o que desperta sua curiosidade.”

Na primeira resposta existe julgamento.

Na segunda existem curiosidade e limite ao mesmo tempo.

E relacionamentos saudáveis precisam dos dois.

Dizer “não” também faz parte de uma boa conversa

Falar sobre desejos não significa que todas as fantasias precisam ser realizadas.

O outro pode compartilhar algo que você simplesmente não deseja experimentar.

E você pode dizer não.

Sem culpa.

Sem precisar justificar longamente.

Sem medo de decepcionar.

Um relacionamento saudável não é aquele em que duas pessoas desejam exatamente as mesmas coisas.

É aquele em que existe espaço para diferenças sem que ninguém precise ultrapassar seus próprios limites.

Podemos amar alguém profundamente e ainda assim dizer:

“Isso não é para mim.”

Consentimento não é apenas dizer “sim”

Quando falamos sobre fantasias, inevitavelmente chegamos ao consentimento.

Mas consentimento é muito mais do que simplesmente ouvir um “sim”.

Ele precisa ser livre.

Não pode existir medo, chantagem emocional, insistência ou obrigação.

Também precisa ser específico.

Concordar com uma experiência não significa concordar automaticamente com todas as outras.

E existe um ponto especialmente importante:

consentimento pode ser retirado.

Uma pessoa pode desejar experimentar alguma coisa e mudar de ideia.

Pode começar e perceber que não está confortável.

Pode ter gostado anteriormente e não desejar novamente.

O “sim” de ontem não é um contrato para amanhã.

Essa ideia deveria fazer parte não apenas das relações que envolvem fetiches ou BDSM, mas de qualquer relação íntima.

Curiosidade não precisa virar prática

Às vezes, uma conversa sobre fantasias termina apenas em uma boa conversa.

E isso já pode ser muito interessante.

Casais podem descobrir aspectos um do outro que desconheciam.

Podem rir.

Podem se surpreender.

Podem perceber que compartilham algumas curiosidades.

Ou simplesmente descobrir que são muito diferentes em determinadas questões.

Nenhuma dessas possibilidades representa fracasso.

Intimidade não é medir quantas experiências um casal realiza.

É também construir um espaço em que duas pessoas conseguem ser sinceras sem medo.

E quando existe vontade de experimentar?

Se ambos demonstrarem interesse, o próximo passo não precisa ser fazer tudo imediatamente.

A curiosidade pode ser explorada gradualmente.

Primeiro, conversem.

Pesquisem.

Entendam o que aquela experiência envolve.

Definam limites.

Comecem pela versão mais confortável para ambos.

Dependendo da fantasia, vocês podem descobrir que existem diversas formas de explorar aquela curiosidade sem necessariamente reproduzir exatamente aquilo que imaginaram.

O importante é que a experiência seja construída em conjunto.

Não como uma obrigação.

Mas como uma descoberta.

Produtos também podem entrar nessa conversa

Para alguns casais, falar sobre produtos para o bem-estar íntimo é uma maneira simples de começar a explorar desejos.

Um vibrador, um massageador, uma lingerie, um óleo para massagem ou algum acessório pode introduzir novidade sem exigir grandes mudanças na dinâmica da relação.

Mas existe uma regra importante:

um produto nunca deve aparecer como surpresa quando seu uso envolve diretamente o corpo do outro.

Surpreender alguém com um presente é diferente de pressupor consentimento para utilizá-lo.

Primeiro vem a conversa.

Depois, se houver interesse dos dois, vem a descoberta.

O que podemos aprender com o universo BDSM

Mesmo quem nunca pretende praticar BDSM pode aprender algo interessante observando a cultura de comunicação existente nesse universo.

Em muitas dinâmicas BDSM, conversar antes da experiência é considerado parte fundamental dela.

As pessoas discutem previamente o que desejam, aquilo que não desejam, limites, expectativas e maneiras de interromper a experiência.

Algumas utilizam inclusive palavras de segurança previamente combinadas.

Existe uma ironia interessante nisso.

Um universo frequentemente retratado como extremo pode nos ensinar algo extremamente básico:

não deveríamos precisar adivinhar aquilo que o outro deseja.

Perguntar é melhor.

Conversar é melhor.

E respeitar a resposta é indispensável.

Quando a fantasia desperta insegurança

É possível que uma conversa sobre desejo desperte ciúme ou insegurança.

Imagine que seu parceiro compartilhe uma fantasia que não inclui exatamente aquilo que você esperava ouvir.

A primeira reação pode ser:

“Então eu não sou suficiente?”

Mas fantasias não funcionam necessariamente dessa maneira.

Nossa imaginação não é uma avaliação da qualidade do relacionamento.

Podemos amar profundamente uma pessoa e ainda possuir um universo interno cheio de pensamentos, curiosidades e fantasias.

Antes de interpretar aquilo como uma crítica, vale perguntar:

“O que exatamente desperta seu interesse nessa fantasia?”

Às vezes, a resposta não tem nada a ver com outra pessoa ou com insatisfação.

Pode estar relacionada a uma sensação, a uma dinâmica, a uma atmosfera ou simplesmente à curiosidade.

Quando conversar se torna pressão

Existe uma diferença importante entre abrir espaço para uma conversa e insistir para que alguém revele seus desejos.

Ninguém é obrigado a contar suas fantasias.

Intimidade também significa respeitar aquilo que uma pessoa prefere manter privado.

Da mesma forma, compartilhar uma fantasia repetidamente com o objetivo de convencer alguém que já disse não deixa de ser diálogo e começa a se transformar em pressão.

O limite precisa ser respeitado.

Sempre.

Desejos podem mudar

Aquilo que despertava curiosidade aos 20 anos pode não despertar aos 40.

E algo que nunca chamou atenção pode começar a interessar em outra fase da vida.

Relacionamentos também mudam.

O corpo muda.

A rotina muda.

A autoestima muda.

A maternidade, a menopausa, novos relacionamentos, separações e inúmeras experiências podem transformar nossa relação com o desejo.

Por isso, essa não precisa ser uma conversa que acontece uma única vez.

Podemos continuar conhecendo quem está ao nosso lado.

E podemos continuar conhecendo a nós mesmas.

Intimidade também é poder falar

Talvez a parte mais interessante de conversar sobre fantasias não seja descobrir uma nova experiência.

Talvez seja descobrir que existe espaço dentro da relação para falar sobre aquilo que normalmente escondemos.

Poder dizer:

“Tenho curiosidade.”

“Não tenho certeza.”

“Gostaria de experimentar.”

“Não quero.”

“Talvez.”

“Isso não é para mim.”

Todas essas respostas são legítimas.

Uma relação íntima não precisa ser construída sobre a obrigação de realizar todos os desejos.

Ela pode ser construída sobre algo muito mais importante:

a liberdade de falar sobre eles.

Na My Secret, acreditamos que conhecer o próprio desejo também faz parte do autoconhecimento.

E talvez uma das formas mais bonitas de intimidade seja justamente encontrar alguém diante de quem podemos ser curiosas, fazer perguntas, estabelecer limites e continuar descobrindo quem somos — sem vergonha e sem julgamento.


Perguntas frequentes

É normal ter fantasias mesmo estando em um relacionamento?

Sim. Fantasias fazem parte da imaginação e não significam necessariamente insatisfação com o relacionamento nem desejo de realizá-las.

Preciso contar todas as minhas fantasias para meu parceiro?

Não. Compartilhar desejos é uma escolha. Intimidade não significa abrir mão de toda privacidade.

E se meu parceiro quiser algo que eu não quero?

Você pode dizer não. Compartilhar uma fantasia não cria obrigação para a outra pessoa.

Posso mudar de ideia depois de concordar?

Sim. Consentimento pode ser retirado a qualquer momento, inclusive durante uma experiência.

Como falar sobre um fetiche sem assustar meu parceiro?

Escolha um momento tranquilo, apresente o assunto como uma conversa e explique o que aquilo significa para você. Não transforme a conversa em uma proposta que precisa receber uma resposta imediata.

Fantasia significa que quero aquilo na vida real?

Não necessariamente. Algumas fantasias são interessantes justamente enquanto permanecem no campo da imaginação.


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